Aula nº 21: Tanto Az(n)ar político...

As eleições realizavam-se no domingo, dia 14 de Março. O atentado bombista da Atocha ocorreu três dias antes, uma quinta-feira. Foi precisamente durante este intervalo de tempo que o fiel da balança desequilibrou a aritmética eleitoral. Os espanhóis, pouco satisfeitos com a política adoptada por Aznar no que concerne à invasão no Iraque, clamaram por respostas plausíveis, de molde a conhecerem, a montante, os motivos da forte explosão que abalou Espanha.
O partido do poder reagiu conforme os seus interesses políticos, argumentando que o rebentamento dos engenhos explosivos dever-se-ia a mão da ETA. Com facilidade, libertava-se de um problema ficando a aguardar por resultados efectivos.
“Não há provas. Mas o facto é que pode ter sido a ETA. Como pode ter sido a Al Qaeda. Podia ser uma organização ou outra, porque qualquer uma delas era capaz de ter feito o que se fez. A questão é que faz uma grande diferença, uma tremenda diferença para muita gente, se os autores do atentado em Atocha foram uns árabes de Bin Laden ou uns europeus branquinhos e louros do País Basco”.
Sérgio Figueiredo, Jornal de Negócios, 12 de Março 2004
Como a ETA reivindica invariavelmente a autoria das suas acções, a nação espanhola aguardava que o incidente fosse publicamente reclamado por aquele grupo separatista. Não aconteceu. Elementos com ligações à ETA demitiram-se de responsabilidades, recusaram qualquer protagonismo, colocando em causa a palavra do Primeiro-Ministro espanhol, que tinha concentrado todas as atenções para os membros extremistas.
Com esta atitude, Espanha emudecia! O político Aznar, que também se perfilava como candidato à reeleição, via as suas declarações serem desmentidas na praça pública - o mesmo local onde horas antes circulava o panfleto promocional da sua imagem. Sob o plano teórico, três dias antes, José Luís Zapatero não reunia condições necessárias para assumir um cargo de vital importância, mas momentos após o terramoto político-administrativo era o rosto da salvação do país, concitando todas as características necessárias para governar Espanha. Resultado: o PSOE ganhou as eleições ao PP!
Esta foi, pois, a clara demonstração de que o povo quis penalizar severamente a mentira, a falsidade, o embuste. Como? Invertendo diametralmente o sentido de voto num espaço de... horas.
“Consumada a tragédia e contados os votos, jornais influentes acusam um presidente de governo de, pessoalmente, lhes mentir, a propósito da autoria do mais mortífero atentado terrorista realizado no país. A intenção seria manipular a vontade popular na hora do voto, mas o plano não resistiu o tempo suficiente para vingar, porque a liberdade de informação prevaleceu sobre a tentativa do seu controlo, transformando em castigo o que o autor pretendia que fosse prémio: José María Aznar e o PP perderam umas eleições cujas sondagens lhes davam a vitória”.
Joaquim Furtado, Leitores e eleitores em Democracia, Jornal Público, 21 de Março de 2004
Gestão de crises
‘Algo acontece e não estava previsto’. A partir desta altura, soam os repiques da comunicação de crise dentro de uma estrutura político-partidária ou de uma nomenclatura empresarial. O importante é, todavia, saber responder. No plano político, sabe-se que, perante uma crise, são criadas manobras de diversão no sentido de desviar atenções (exemplo do deputado voador: 'Não sou apenas eu que tenho multas por excesso de velocidade').
O caso do 11-M, em Espanha, é um dos exemplos onde a ‘manobra’ falhou. Aznar imputou culpas à ETA, procurando colocar uma capa protectora sobre as políticas por si defendidas e partilhadas a nível europeu em sede própria. Entretanto, as pistas sobre o ataque bombista começam a ser descobertas e o governo perde credibilidade – ou não tivesse sido José Luís Aznar o responsável pela divulgação da notícia de que era a ETA que estava envolvida no ataque.
Confirma-se, nesse sentido, que existe uma tendência de contornar um problema quando ele desabrocha. Por norma, é o ‘assessor’ que manipula, que transforma a realidade a seu favor, sendo certo que existem duas palavras importantes numa comunicação de crise: verdade e transparência.
A política de transparência é a mais correcta, mas a menos inteligente, porque fragiliza o protagonista (exemplo do deputado voador). No entanto, existem situações em que não se pode manipular. A saúde das pessoas por exemplo. Nestas, em particular, as empresas não podem reagir através da manipulação, porque o julgamento social, neste pormenor, será terrível.
Ao mesmo tempo, numa situação de crise, a comunicação social coloca-se sempre ao lado do consumidor, solidarizando-se com a vítima. A opinião pública gosta que alguém assuma responsabilidades e, numa empresa de bens de consumo, negar o problema é ainda pior. Aliás, constitui um erro estratégico uma empresa de bens de consumo negar um facto consumado, mesmo que tenha razão. Negar é um erro!”, reitera-se ‘Venham auditar-nos!’ ou ‘Estamos convencidos que não é verdade’ é o contrário de dizer ‘É mentira!’, compara frequentemente o assessor de imprensa.
Uma coisa é certa. A primeira vez que uma empresa falar sobre um produto tem de falar de tudo no imediato, porquanto, é crucial passar a mensagem numa única intervenção, sem recurso a repetições ou falsas espontaneidades. Nesse aspecto, os políticos também já perceberam que o marketing social funciona.
Saber reagir é importante e até pode dar uma nova vitalidade à empresa. Para os chineses, uma crítica está implícita uma oportunidade. Por essa razão, defende-se a ideia que uma comunicação de crise pode (e deve) ser preparada, projectando simulações do que pode eventualmente surgir dentro de uma cadeia de informação. É isso que tem sido sistematizado nos diferentes Municípios…









A campanha negativa perpetrada pelo Partido Social Democrata no sufrágio que consagrou José Sócrates como Primeiro-Ministro acabou por inspirar outros modelos de críticas. Decorrido pouco mais de um ano após a sua eleição, 













