Segunda-feira, Janeiro 16, 2006

Aula nº 11: Entre a espada e a… mentira!

Do ponto de vista da atitude para com os media, há basicamente dois tipos de políticos locais. O primeiro é o dos que seguram o braço do jornalista para lhe fazerem supostas confidências. Põem o jornalista à vontade e contam-lhe anedotas. Sabem como os jornalistas apreciam a intimidade com os famosos e que poucos resistem à vaidadezinha de contar aos amigos uma conversa com o presidente da Câmara para mostrar que estão no círculo. Quem anda com os importantes torna-se importante.
O segundo grupo é o dos políticos que escolhem manter a distância e preferem infundir respeito. É a velha táctica do simbólico. Cultivar a aura de inacessibilidade do poder. Manter os jornalistas intimidados pela importância da personalidade. Em ambos os casos, é crescente a consciência de que o poder, para se afirmar, precisa de mediatização
”.

Ora, essa mediatização é estabelecida através do assessor de imprensa. Que faz a ponte entre o político/protagonista e a comunicação social/mundo exterior. Esta relação, porém, está sujeita a diversos cambiantes que nos conduzem a um conjunto de quadros nem sempre coincidentes com as conveniências do protagonista e/ou com os objectivos que o jornalista aspira.
O papel do profissional de comunicação social revela-se, pois, deveras importante na teia de relações que se fomenta em seu redor. De que modo o jornalista é encarado aos olhos dos protagonistas? Há quem o veja como uma partícula decisiva na estrutura de uma estratégia, como um elemento útil para difundir uma mensagem ou como algo acessório que desempenha um papel principal.
Seja como for, reconhece-se globalmente que o jornalista não constitui mais um número estatístico no segmento das actividades profissionais. Talvez por isso é observado com especial atenção por parte do assessor de imprensa. Que lhe telefona ou que lhe fornece material noticioso com um fim específico previamente estipulado. O jornalista, ao invés, sabe que, muitas vezes, intervém num processo cuja tarefa se reduz a um papel… intermediativo.
Impera, aqui, o âmago desejo de manipular “o homem que dá as notícias”, numa tentativa de o transformar numa marioneta utilitária. Avaliar e destrinçar a matéria que lhe é arremessada acaba por ser, pois, a principal tarefa do jornalista que recebe informações cujo objectivo, muitas vezes, visa mostrar uma realidade, ou parte dela, que não corresponde… realmente.

Neste particular, é fundamental que o jornalista não perceba que está enfarinhado numa campanha promocional que pretende obedecer aos desígnios de uma qualquer entidade patronal. É por esta altura que se legitima a existência de um assessor de imprensa. Ao mesmo tempo, é por esta altura que se assiste ao recurso de estratégias profissionalizadas, disfarçadas de uma excepcional subtileza, de molde a subterfugiar a verdadeira mensagem. Até porque, antes de mais, importa ladear o espírito crítico do jornalista, porquanto, o mensageiro sabe que, por sistema, o profissional de comunicação social denota natural aversão em pactuar com planos comerciais ou campanhas promocionais.

Eticamente, uma relação profissional entre um assessor de imprensa e um jornalista deveria ser inspirada em princípios de confiança mútua. Mas nem sempre assim sucede. Isto porque a colisão de interesses anteriormente mencionada vai ganhar expressão e desembocar, incontornavelmente, na insustentável tentação da mentira. Que na maior parte das vezes pode revelar-se contraproducente.
Um assessor que recorre ao embuste perde credibilidade, segurança, logo, espaço de manobra. Profissionalmente, o seu futuro pode ficar comprometido porque a imagem que transmite não se reveste de idoneidade.
Surge, então, outra questão que arrola o grande dilema dos assessores. Que atitude deve ser tomada quando não se pode dizer a verdade? Ponto de ordem. Mentir deverá ser a última solução (sempre dispensável). Titubear e afirmar que “existe qualquer coisa por aí” é um sedutor convite ao instinto apurado do jornalista-investigador.
Novo ponto de ordem. A alternativa é negociar. Dirimir cordialmente uma situação delicada oferece seguramente melhores resultados do que iniciar um quadro de confronto. Procurar a confiança e a admiração do jornalista afigura-se, neste caso, como a solução mais plausível (é uma forma hábil do assessor demonstrar que não quer persuadir o jornalista a todo o custo). Furtar-se aos problemas só tem um objectivo: ganhar tempo para esboçar a melhor resposta – se houver resposta.

Perante o exposto, seria conveniente que a actividade fosse regulamentada, de modo a ser criado um modelo que institucionalizasse os princípios da classe. Mas não há. A APECOM tem um código de ética para as empresas que lhe estão associadas. E fica-se por aí. Cada qual define o padrão consoante os interesses revelados em determinadas situações concretas. O Código de Estocolmo acaba por resumir, pois, os cânones na profissão de relações públicas.
Um dos trunfos que os assessores orgulhosamente procuram potenciar é o (apenas teórico) desenfreado interesse dos jornalistas em obter uma “cacha”. Julgam que o aceno com uma notícia em primeira-mão poderá ser suficiente para “aliciar” um jornalista. Os mais frágeis cedem, claro está! Contudo, há quem interprete esse gesto de forma racional e perceba que o telefonema do assessor, afinal, pode ser secundarizado de intenções.

O que por vezes sucede é outra habilidade extraordinária: o protagonista penalizar os jornalistas com represálias. Há um procedimento engenhoso que habilmente muitos recorrem. Quando não existe forma de “convencê-los”, são excluídos do rol de convidados nas viagens de serviço. Como fez o chanceler alemão, Gerhard Schroeder há dois anos (Março 2004).
A atitude discriminatória do governante motivou a Associação Nacional de Jornalistas germânicos a insurgir-se contra as políticas adoptadas pelo chanceler. Em causa, estava a exclusão de dois jornalistas do “Stern” e dois repórteres do “Bild” da comitiva que acompanhou Schroeder à Turquia e aos EUA. A ausência destes profissionais da comunicação foi justificada com o “número limitado de lugares no avião”.
O mais caricato acabou por acontecer depois. O “número limitado de lugares no avião” deixou de ser o (principal) argumento invocado pelo porta-voz do Governo, sendo substituído pela (real) tese que os jornalistas que acompanhariam no futuro o chanceler seriam “criteriosamente escolhidos”. Mais. Gerhard Schroeder deixaria de conceder entrevistas ao jornal de maior circulação a nível europeu. Ou seja… ao “Bild”, cujo universo aproxima-se dos 12 milhões de leitores.

Importa, pois, compreender o cerne de uma estratégia em que o jornalista, muitas vezes, é “apaparicado” em obediência a um objectivo atempadamente definido, cuja retaguarda acopla campanhas agressivas e ambiciosas, mas ardilosamente subtis. Daí a necessidade do jornalista preservar um espírito independente e crítico, sem que esta postura se traduza em recusas absolutas.

Uma citação:
Havia um assessor 'inteligente' que estrategicamente mandava todos os fins-de-semana notícias-chave para as redacções. A aposta dele era, sobretudo, o domingo para criar impacto na segunda-feira. Achava que nós, jornalistas, não teríamos outras matérias noticiosas para abrir o jornal e, como tal, nem sempre as coisas lhe correram como ele desejaria”.
David Pontes, Director Adjunto do JN, durante o colóquio “A presença do Norte na Comunicação Social”, organizado pelo Gabinete de Imprensa de Guimarães, no dia 24 de Março de 2006

Um exemplo:
Uma das polémicas que marcou a relação jornalista-empresas de comunicação foi travada entre Emídio Rangel, então director-geral da SIC, e Carlos Sousa, sócio-gerente da MSG, a mais antiga gerência de comunicação e relações públicas com sede no Porto e sócia da APECOM. Estávamos no Verão (quente) de 2003 (Junho/Julho).

Estas empresas, às vezes apelidadas de ‘relações públicas’, ‘comunicação’ e etc, na prática, não passam de associações de malfeitores, cujas contas, contabilidade, impostos, clientes, etc, deviam ser escrutinadas ou pelas instituições que ‘tutelam’ os jornais ou pelas repartições do Estado que têm as responsabilidades atrás referenciadas”.
Emídio Rangel in Jornal de Negócios, 27 de Junho 2003

(…) é meu dever desafiar o articulista a estancar a verrina que lhe atormenta a bílis, a recolher o berbequim e o pé-de-cabra e a tentar voltar a si, na plenitude das suas capacidades físicas e mentais (…). Quando li o artigo de Emídio Rangel pela primeira vez, comentei com os meus próprios botões: ‘Este tipo passou-se de vez…”.
Carlos de Sousa in Jornal de Negócios, 01 de Julho 2003

O ‘inteligente’ Carlos Sousa não distingue os bons dos maus e os sérios dos desonestos, e num jeito corporativista mete tudo no mesmo saco. São empresários de comunicação logo são sérios – pensa o Sousa. Quer atirar areia para os olhos dos incautos. (…) Quanto às ameaças da sua associação, oh senhor Sousa, vá dar banho ao cão. Quer intimidar-me? Tenha juízo”.
Emídio Rangel in Jornal de Negócios, 27 de Junho 2003

Não somos ‘abutres’ ou ‘cogumelos venenosos’, nem ‘associações de malfeitores’ e muito menos ‘crápulas’ ou ‘polvos’, nem a nossa actividade é uma ‘doença’ que avança ‘como lepra’ (…) A confusão é total”.
Resposta da Direcção da APECOM in Jornal de Negócios, 30 de Junho 2003

5 Comments:

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