Domingo, Março 12, 2006

Aula nº 13: Manipulação I - Pseudo-eventos / Manobras de diversão

O jornalista profissional que trabalha numa redacção sabe que a informação que lhe chega às mãos vem (quase) sempre acompanhada de interesses secundários. Nenhum indivíduo a título particular ou nenhuma entidade de âmbito institucional ou comercial contrataria um assessor para escrever (simples) textos, de molde a substituir a função para a qual um jornalista havia sido admitido. Há sempre um arsenal de pressupostos que configuram um conjunto de encapotadas intenções – o que, por osmose, acaba por legitimar, afinal, a criação daquele determinado cargo.

Saber jogar com as palavras (e com os números), fabricar a notícia, conhecer o meio envolvente, construir um enredo, manipular contextos são designações que entroncam em objectivos aprioristicamente definidos, cujos pressupostos são estipulados para respeitar o cumprimento de uma estratégia comunicativa.
Aqui, assume especial importância conhecer as diferentes facetas de manipular essa informação, sendo certo que nem sempre manipular é o mesmo que enganar. É verdade que o termo manipulação está intimamente conotado a um sentido pejorativo. Todavia, não é o sentimento de honestidade que deve ser avaliado aqui. O que se pretende, neste caso particular, é alterar a realidade conforme os interesses do protagonista, de maneira a apresentar ao jornalista a melhor ‘embalagem’.

Tudo se resume, pois, a uma questão de afirmação. Ocupar o espaço mediático pressupõe ter importância. Ter notoriedade e algo para dizer. Ser ‘visível’ e ter um discurso enleado… para cativar o jornalista! Isto porque o espaço mediático, sendo extremamente disputado, é finito – o que permite desde já perceber a importância dos protagonistas ‘caberem’ (sempre que possível) nesse espaço.
Por essa razão, muitas vezes são planeadas estratégias profissionais, sofisticadas, de forma a coroar de êxito os objectivos desejados. Pode haver uma estratégia brilhante, singular, única, mas também é provável que possa haver um assunto-extra que surja em paralelo e que arruíne o objectivo da estratégia concebida.

Por outras palavras, não basta perspectivar uma estratégia brilhante. É importante pensar nas condicionantes que podem influenciar a exequibilidade dessa estratégia, na medida em que ninguém ocupa o espaço mediático de forma exclusiva. Como se disse, ele é extremamente cobiçado e deveras aliciante, dado que encerra em si mesmo uma luta permanente, uma pressão constante. E porquê? Porque há um grau máximo de sofisticação que os protagonistas têm para os jornalistas lhe darem atenção. Há muita gente interessada em dar notícias. E é preciso criar iniciativas com valor mediático para cativar a atenção dos profissionais da comunicação social.

Está demonstrado que o protagonista não manda no espaço mediático. Isso é ponto assente. Mas, em alternativa, pode criar uma manobra de diversão para reivindicar as luzes da ribalta. Aliás, quando existem notícias negativas, a solução passa por criar (mesmo) manobras de diversão, de molde a desviar a atenção do jornalista. [No caso de notícias positivas, elabora-se uma estratégia e espera-se que factores exógenos não intervenham na sua aplicabilidade.]

A estes factos que obrigam o jornalista a olhar para outro lado são vulgarmente conhecidos por ‘cortinas de fumo’. São montadas estratégias - de tal forma bem concebidas - que o profissional de comunicação desvia-se do centro nevrálgico da questão, fixando o seu olhar de lince em pormenores que foram ‘instrumentalizados’ para o efeito. Exemplo flagrante: difundir notícias negativas ao fim-de-semana, dias convencionados ao descanso onde a noção de actualidade fica diminuída e a taxa de probabilidade da notícia passar despercebida é… maior! Concomitantemente, o jornalista está ocupado com essa notícia/acontecimento (e não está a fazer outras coisas).
O ensaísta e historiador norte-americano Daniel Boorstin é tido como o responsável pela emergência do termo ‘pseudo-acontecimento’. No seu livro, ‘A Imagem’, Boorstin atribui algumas características fundamentais ao ‘pseudo-acontecimento’, designadamente o facto de não ser espontâneo e de ser criado com o objectivo de garantir a sua própria difusão.

Ou seja, segundo defende Estrela Serrano no livro ‘As presidências abertas de Mário Soares’ (Minerva, Coimbra, 2002, pág. 23), os pseudo-acontecimentos “não são espontâneos; surgem porque foram planeados; são criados para serem cobertos pelos media; o seu sucesso mede-se pela amplitude da sua cobertura (..)”.

É certo que sim, bem como também é incontornável que os pseudo-acontecimentos, por vezes, ganham uma expressão tão elevada que os jornalistas são obrigados a noticiá-los, mesmo sabendo que não têm fundamento. “Os pseudo-acontecimentos são, no fundo, uma espécie de falsa realidade construída por quem tem algum interesse nisso com o objectivo de tornar ‘obrigatória’ a publicação por parte dos jornalistas!”, pode-se ler ainda na mesma publicação de Estrela Serrano, actualmente a exercer funções como membro da novel Entidade Reguladora da Comunicação.

Esta postura dá uma visão negativa do jornalismo?
Também não dá positiva…

PS:. A fuga de informação pode ser outro caso de pseudo-evento. [Boorstin define a 'fuga' como “um meio, através do qual uma fonte oficial com um propósito bem definido, fornece uma informação, faz uma pergunta ou uma sugestão. Mais que um anúncio directo, a 'fuga' presta-se muito melhor a esconder determinados objectivos”.

2 Comments:

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