Aula nº 15: Manipulação III - Campanhas negativas
Em Portugal, porém, o país não conhece grandes exemplos de campanhas negativas. Na memória recente pontificam os cartazes pouco abonatórios que o Partido Social Democrata concebeu contra o Partido Socialista, por ocasião das últimas Eleições Legislativas. ‘Sabe mesmo quem é?’ ou ‘Quer mesmo que eles voltem?’. Foram perguntas distribuídas por todos os painéis eleitorais que, estrategicamente, procuravam afectar a imagem de José Sócrates, por sinal benquisto no universo eleitoral.
Pela primeira vez, uma candidatura política manifestava especial atenção por projectar na praça pública os defeitos e pontos fracos do seu adversário, substituindo a tradicional entrega de propaganda pelo recurso às novas tecnologias. As campanhas pela positiva (um candidato valorizava os seus próprios atributos) estavam a dar lugar à campanha negra – metodologia já enraizada no Brasil e nos EUA...
Este tipo de campanha é, contudo, facilmente identificado. Existe um conjunto de pressupostos que caracterizam uma campanha negativa, sendo que fazer uma acusação é, seguramente, um deles. O tipo de linguagem utilizada (insultos e enxovalhos) também se enquadra na caracterização de um (novo) estilo que emerge em Portugal. Os outdoor’s – fisicamente – asseguram o prolongamento da mensagem, mas uma outra metodologia pode destruir eficazmente – se não for combatido – a imagem de um político: o rumor.
O actual Primeiro-Ministro foi alvo de uma delicada campanha que influiu directamente com o seu plano de intenções. A devassa da vida privada, relacionada com a sua orientação sexual, deu origem ao nascimento de um boato que facilmente percorreu os meandros cybernáuticos, em Portugal. Todavia, esse boato ganharia uma outra escala quando passou para outros domínios.
A partir do momento em que a Comunicação Social aborda a temática de um rumor, já está a dar importância que não deveria ter. O espaço público, esse, mantém-se: ‘Se aparece na televisão é porque existe!’. Ora, perante o exposto, o conselheiro político, que procura ser discreto e eficaz, tem de decidir pela temporização da resposta, na medida em que o simples rumor começa a ganhar outras proporções, devido à emancipação da internet, instrumento que facilitou a difusão de rumores por esta via.
A tomada de posição urge e decisões têm de ser tomadas, depois de se ter concluído que, pela primeira vez, Portugal havia conhecido a utilização de um boato numa campanha eleitoral. A acrescer a tudo isto, a própria Comunicação Social enfarinhava-se com o tema, além que também foi palco de uma discussão permanente, o que emprestou outra dimensão ao rumor. E, depois, também pela primeira vez, assistiu-se à exposição pública de cartazes em estruturas metálicas, sugerindo a negação absoluta do voto no candidato que as sondagens indicavam vencedor.
O decurso do período de campanha eleitoral havia de aquecer o ambiente político com respostas arrojadas e subtis contra-respostas que surpreendiam o eleitorado – impressionado com a introdução de novos procedimentos na cultura política portuguesa. Os rumores tinham um objectivo: minar e desgastar a imagem e a reputação do líder do PS no sufrágio eleitoral, em detrimento do seu opositor na corrida às eleições findas.
A grande diferença em todo este processo chamava-se ‘media’. Ou seja: se uma campanha positiva se faz na Comunicação Social, uma negativa faz-se muito mais. Em conjunto cria-se uma peculiar atmosfera política.
Um (outro) caso português
A campanha negativa perpetrada pelo Partido Social Democrata no sufrágio que consagrou José Sócrates como Primeiro-Ministro acabou por inspirar outros modelos de críticas. Decorrido pouco mais de um ano após a sua eleição, Sócrates (Poder PS) tomou a decisão de encerrar um conjunto de maternidades, entre elas, a do Hospital Santa Maria Maior, em Barcelos (Município PSD).
O dossier cobriu-se sob o manto da mais acesa polémica, tendo um grupo de grávidas viajado até Lisboa para manifestarem o seu descontentamento em plena Assembleia da República. Ao todo, foram três dezenas de mulheres que se deslocaram ao Parlamento para protestarem uma decisão governamental. A este acto simbólico associaram-se aproximadamente 10 mil barcelenses. Antes, sob o ponto de vista político, o Partido Comunista Português tratava de 'selar' a cidade de Barcelos, com um pano de ordem nada amistoso… (Fotos: Correio do Minho, Edição nº 6379, de 21 Abril de 2006)


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